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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Kung Fu Panda

Semana passada assisti ao Incrível Hulk e noticiei a amigos que iria finalmente atualizar o blog com a crítica deste filme. Chegou o final de semana e, apesar de descrente, fui ao cinema assistir Agente 86. Na saída do cinema eu já estava preocupado. Tinha de blogar sobre dois filmes. Agente 86 merecia certa consideração de minha parte e eu não poderia ignorá-lo. Mas nada havia me preparado para aquilo, eu apreciava os cartazes enquanto Dna. Patroa aturava a fila do banheiro feminino, quando li, em letras pequenas sobre o cartaz do Kung Fu Panda, o anúncio de uma sessão de pré-estréia para o filme. O inacreditável é que o filme só fará sua estréia no dia 4 de Julho. Resultado: No dia seguinte eu estava novamente as portas do cinema e as críticas do Incrível Hulk e do Agente 86 vão aguardar mais alguns dias para serem postadas.

Desde muito tempo desconfiava que Kung Fu Panda poderia não ser um bom filme. A estratégia de marketing usada para divulgá-lo mostrava muito pouco do seu material o que normalmente significa que o filme não tem material. Felizmente, como aconteceu também com Happy Feet, outro filme de animação que vale a pena ser visto, eu estava retumbantemente enganado. Kung Fu Panda é ótimo. Adultos e crianças riem durante toda a projeção.

Kung Fu Panda conta a história de um grupo de grandes mestres de Kung Fu que após a revelação de que o lendário Dragão Guerreiro é Po, um panda que trabalha com seu pai, um budista-hinduísta-xintoísta-confuso pato cozinheiro que acredita que todos vieram da sopa, como assistente de cozinha, precisam treiná-lo para que ele cumpra seu destino, derrotar Tai Lung e trazer paz ao Vale da Paz.

Iniciando com uma longa e excelente seqüência em 2D o filme mostra logo para que veio, divertir. O filme não tem a mesma qualidade gráfica e estética das animações da Pixar, que ainda são inigualáveis, mesmo assim possui um excelente trabalho gráfico, bastante superior aos filmes antecedentes da PDA, divisão de animação da DreamWorks responsável pelas franquias Shrek, Madagascar. De maneira geral as cenas são pouco poluídas e algumas "locações" são artisticamente belas.

O tempo de comédia do filme é muito bom, tanto que não me recordo de nenhuma tentativa fracassada de provocar risadas no espectador. Seja com tiradas verbais, seja com o humor físico, Kung Fu Panda sempre acerta. Conseguindo tirar boas risadas mesmo das seqüências de luta, algumas bem longas.

Como um grande e profissional estúdio que é a DreamWorks planeja e desenvolve o filme com o público alvo sempre em mente. Neste caso, seu público são as crianças. Então, não espere muita verossimilhança, nem uma história complexa repleta de reviravoltas. O enredo é manjado e até certo ponto clichê, tanto que me fez lembrar de uma boa meia dúzia de outros filmes. Contudo não deixa de divertir os adultos.

Quanto a preocupação que tenho visto por parte de alguma pessoas, Kung Fu Panda não é um filme para meninos. Minha filha de seis e uma sobrinha de doze anos me acompanharam ao cinema e já fui obrigado a prometer a minha filha que comprarei o DVD do filme tão logo quanto ele esteja disponível.

Aconselho a todos que não precisam levar crianças pequenas ao cinema e planejam assistir ao filme que procurem a versão legendada que está com um ótimo elenco de dubladores que inclui: Jack Black, Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Jackie Chan, Lucy Liu, entre outros.

Kung Fu Panda pode não ser um exemplo perfeito de filme para toda a familia, mas, sem duvida, é diversão garantida para todos aqueles que procuram uma excelente comédia.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Os Indomáveis


Não existem gêneros cinematográficos mortos, por mais que um seja usado e maltratado pela indústria cinematográfica. Basta uma boa história e trabalho sério para que o aparentemente caquético gênero dê bons frutos. 2007 (no calendário estadounidense) foi o ano que devolveu à baila os westerns (faroestes), com, ao menos, três bons filmes: O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (The Assassination of Jesse James by the coward Robert Ford), Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Men) e o objeto de analise deste texto Os Indomáveis (3:10 To Yuma). Alguns reclamarão que Onde os Fracos Não Têm Vez não é um western. A verdade é que toda sua temática é a de um legitimo faroeste e o fato dele se passar nos dias de hoje apenas mostra a capacidade do cinema de recriar.

Os Indomáveis é o remake de um clássico dos westerns chamado Galante e Sanguinário - o título original é 3:10 To Yuma em ambas as versões - que conta a história de Ben Wade (Russell Crowe), um perigoso e famoso ladrão de diligências, que após ser preso em uma pequena cidade precisa ser escoltado a Contention onde pegará o trem dàs 3:10 para a cidade de Yuma. Um pequeno grupo é selecionado para escoltar Wade, entre eles um rancheiro falido e perneta chamado Daniel Evans (Christian Bale) que acredita que com a recompensa por este trabalho poderá manter suas terras e reconquistar algum prestigio junto a sua familia. Entre eles e Contention está o bando de Wade que tentará obstinadamente resgatar seu líder.

Conciliando sua preocupação com a história que tem que contar, com seu desejo de homenagear o gênero, o diretor James Mangold (Johnny e June) adiciona todos os elementos consagrados possíveis de faroeste a história. Assim, se é para Ben Wade ser ladrão, que seja de diligências, já que Daniel Evans é pobre, por que não ser um rancheiro endividado que teme a ferrovia que talvez venha a passar por suas terras e, ainda, ex-soldado da guerra de secessão. O que não pode ser adicionado, James Mangold quer se concentrar na história, pode ser citado. não há bebedeiras em bar! que hajá ao menos um brinde; ninguém joga pôquer! Que o garoto embaralhe cartas; não há duelos! Que alguém comente a velocidade com que Ben Wade saca; não tem dançarinas de cabaré! Que Wade esteja dormindo com uma ex ao ser preso; essas são algumas das muitas homenagens preparadas pelo diretor que ainda introduz: celeiros em chamas, índios, garotos usando armas (algo cada vez mais inaceitável no cinema estadounidense), etc.

Manejando bem os recursos técnicos disponíveis sem deixar de usá-los como um meio para um fim (ops, referência ao Quebrando a Banca), James sabe que o que ele tem para mostrar são os dois ótimos personagens da história e chamar atenção ao meio que comunica esta história pode, de alguma maneira, tirar a atenção destes personagens. Assim, fotografia, montagem e trilha podem não ser destacados por determinado momento do filme, mas acompanham dignamente seus protagonistas.

Quem diria que o circunspecto protagonista de Psicopata Americano (American Psycho), O Grande Truque (The Prestige) e Batman Begins, Christian Bale, sabe atuar. Ainda que haja uma certa predileção pelo personagem de Russel Crowe, Christian valoriza seus momentos em cena mesmo com pequenos gestos. Seja um franzir de olhos ou um movimento com a mão tudo lembra um homem selvagem preso ao seu papel na sociedade. Na outra ponta, Russel Crowe vive um homem que se orgulha em dizer que é mau feito o diabo e que prova isso inúmeras vezes durante a projeção. Detentor de um certo carisma que fascina os inocentes ao seu redor, Ben Wade passa mesmo a imagem de bom moço e como todo o cara mau feito o diabo sabe usar isso em seu beneficio.

O filme, é claro, tem seus tropeços. Neste filme, eles estão exatamente em seus personagens principais e, lamentavelmente, poderiam ser evitados com imensa facilidade. Como já foi dito Daniel Evans é perneta o que faz as peripécias realizadas por ele no terceiro ato soarem inverossímeis, demorei mesmo a associar a dor que ele sente com uma queda ao fato de ele não ter uma perna. Já a Ben Wade é atribuída uma religiosidade artificial, ele cita passagens bíblicas e tem crucifixos incrustados nas coronhas de seus revólveres, mas desdenha da oração antes do jantar.

Os Indomáveis é não apenas uma homenagem ao gênero, como um filme que merece ser assistido seja por fãs de westerns seja pelo público em geral.

quarta-feira, 26 de março de 2008

007 Cassino Royale

Comentar sobre o personagem mais famoso de Ian Fleming não é nada simples, haja visto que desde sua primeira aparição cinematográfica, 007 contra Dr. No - 1962, até os dias de hoje somam-se 21 filmes, protagonizados por diversos atores, dentre eles: Roger Moore, Sean Connery e Pierce Brosnan. Assim, todo o cuidado é pouco na hora de apurar os fatos.

Neste 21º filme, Bond, interpretado pelo britânico Daniel Craig, precisa impedir que o banqueiro Le Chiffre (Mads Mikkelsen) continue financiando atentados terroristas, para isso James participa de um jogo de pôquer no Cassino Royale em Montenegro. Por trás desta trama existe o fato de que James foi recém promovido ao cargo de agente "00", cometendo vários deslizes para poder aprimorar sua conduta no MI-6.

Diferentemente dos anteriores, esta película demonstra novas características que podem servir como fatores determinantes para o sucesso da mesma. Mas também apresenta a ausência de situações e personagens tradicionais, que talvez possam vir a torná-la decepcionante para os fãs mais fervorosos. Como as ausências dos personagens Q, interpretado por Desmond Llewelyn e falecido antes do lançamento de 007 - O Mundo não é o Bastante e R (Jonh Cleese), que participa dos 007 - O Mundo Não é o Bastante e 007 - Um Novo dia para Morrer, que eram responsáveis pelo alivio cômico destes filmes, o que não os impediu de serem descartados neste último. Outro ponto a se destacar é a falta (justa) de cenas mirabolantes e extremamente inverossímeis como a passagem inicial de 007 Contra GoldenEye e, por fim, o fator chave de todo James Bond, que é seu charme, foi totalmente perdido neste filme, não que o diretor e o roteirista não o tenham incluído no filme, mas sim pelo pela incapacidade de Daniel Craig em demonstrar o mesmo sex appeal que seus predecessores.

Mesmo com essas mudanças, diversos elementos clássicos continuam: as estonteantes Bondgirls,que em Cassino Royale são interpretadas por Caterina Murino e Eva Green, além do vilão-aberração (cada filme da série tem o seu). Neste ele chora sangue.

Os erros primários do agente, seu anseio por matar inimigos, sua impulsividade ao tomar decisões (o que quase o matou) e sua ingenuidade, que o torna alvo de traições, são evidentes desde o início da projeção. Bem como sua resistência em aceitar tais erros. E são exatamente os erros que o levarão para a missão central do filme, bem como o arrastarão ao seu desfecho.

quinta-feira, 13 de março de 2008

O Ano que Meus Pais Saíram de Férias

Não é de se admirar que a comissão criada para indicar o filme nacional para o Oscar preteriu Tropa de Elite a O Ano Que Meus Pais Saíram de Férias. O Ano que Meus País Saíram de Férias além de ser um filme bonito e sensível tem como parte do seu pano de fundo a comunidade judaica no Brasil e como muita gente sabe os Judeus não apenas trabalham em massa na indústria hollywoodiana como adoram puxar sardinha para seu próprio lado, do mesmo modo que todo mundo adora fazer.

O Ano que Meus Pais Saíram de Férias narra a história de Mauro (Michel Joelsas) um menino de doze anos que acaba sendo cuidado por um estranho judeu, vizinho de seu avô, quando este falece repentinamente e os pais dele saem de férias, fogem para escapar da perseguição política promovida pela ditadura.

O filme se prende exclusivamente ao olhar de Mauro e, por isso mesmo, esbanja todos os problemas causados pela temática garoto na casa de estranhos. Mauro tem problemas com Shlomo (Germano Haiut), judeu que o hospeda, com os novos amigos, atravessa uma paixonite de verão, sente a falta dos pais e se assombra com os tipos diferentes que encontra. Tudo isso poderia soar banal e corriqueiro não fosse pelo ritmo cálido conferido por Cao Hamburguer e pelo ano em que Mauro se vê afastado de sua zona de conforto.

1970 foi o ano do tri-campeonato brasileiro e o inicio dos anos negros da ditadura, fase mais violenta da ditadura no Brasil. Talvez por isso muitas pessoas tendam a estreitar os limites do filme, umas dizem que ele fala de futebol, outras que ele diz respeito a ditadura. Coisa que o próprio título do filme parece confirmar. Se O Ano que Meus Pais Saíram de Férias remete a ditadura, Vida de Goleiro, que seria o título do filme não fosse a influência da produção do filme, grita futebol nos ouvidos. Mas a verdade é que o filme retrata um garoto no ano de 1970. Mauro está ausente nos ápices das duas vertentes, ele tanto é retirado de um confronto público entre policiais e manifestantes, quanto abandona o bar onde assistia a final da copa do mundo.

A música do filme pontua muito bem a ação aflorando a emoção do espectador sem, no entanto, tentar levá-lo as lágrimas. Se poderia dizer que ela é contida como o filme.

Contudo provavelmente este belo filme desagradará a grande parte de sua platéia, seja porque as tensões criadas são leves e resolvidas de forma natural, o que vai levar as pessoas a considerá-lo chato ( para mim ele não foi chato ), seja pelo desfecho aberto, que é claro tem sua poética uma vez que a vida de todo garoto pode seguir em qualquer direção, mas normalmente não é do gosto do espectador.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Desejo e Reparação

Desejo e Reparação deveria ser mais um romance de época sobre o infatigável dilema garoto-pobre/menina-rica. Contudo, esta primeira expectativa será frustrada, como serão frustradas quaisquer tentativas de prever o que virá a seguir neste filme que insiste em nos deixar desconcertados, nos colocando em permanente suspense sobre o futuro de seus personagens.

O filme começa na Inglaterra num período imediatamente anterior a segunda grande guerra. Na casa dos Tallis, uma típica familia aristocrata, Cecilia (Keira Knightley), filha mais velha da familia, está apaixonada por Robbie (James McAvoy), filho de uma empregada da casa. O sentimento deles é recíproco, mas a força das aparências e o medo natural de se exporem faz com que eles arrisquem-se em um perigoso jogo de liberdades que é observado por Briony (Saoirse Ronan), irmã mais nova de Cecilia, que confusa a respeito do que via, sem falar nos próprio sentimentos, decide livrar-se do empregado contando uma mentira que muda a vida dos três para sempre.

Depois da mentira de Briony e da consequente prisão de Robbie, somos lançados três anos no futuro e acompanhamos a jornada de cada um dos três personagens. Aqui acontece o que para mim é a maior falha no filme, a personagem Briony passa a ser interpretada por Romola Garai, não que a interpretação passe a ser ruim, mas perde todo o mistério antes mostrado em tela. Se no começo não sabemos a verdade sobre a sonhadora e contundente Briony, que com seus olhos opacos não nos permite jamais ter certeza sobre seus sentimentos ou sobre suas atitudes. Agora ela se torna óbvia e desinteressante destacando-se apenas numa cena em que conversa com um moribundo no hospital.

O figurino e direção de arte são um detalhe à parte uma vez que só por eles poderíamos perceber o período e ocasião do filme. Seja nos maiôs e tocas usados pelas personagens, seja nas alas do hospital onde Briony trabalha. Tudo evoca a época do filme.

A montagem não-linear apesar de bem feita, faz muitas escolhas banais e desnecessárias, que fazem o filme se prolongar mais que o necessário. Assim ela só acerta quando procura mostrar a visão subjetiva e parcial de Briony. Além disso o filme possui um excelente plano-sequência que mostra a retirada dos soldados ingleses da França que só falha pela escolha por uma projeção dessaturada. O que já se tornou um aborrecido clichê em cenas de guerra, como se a única forma de provocar sensação entre os espectadores fosse retirando as cores da imagem.

As atuações de Keira Knightley, James McAvoy e Romola Garai são convincentes e, algumas vezes, até tocantes, mas a escolha do roteiro em não se preocupar com os resultados psicológicos do incidente visto na primeira metade da projeção, faz com que a força deste ato não apenas se perca, só continuamos acompanhando a história porque temos consciência do impacto de tal atitude e não porque o filme traga isto à tona, mas com que os personagens se tornem frágeis. Uma vez que a Cecilia que vimos vestida de enfermeira é essencialmente a mesma que aparece num vestido de noite três anos antes. E se a Briony parece diferente, essa diferença está muito mais na mudança da atriz do que na da personagem, o que se torna evidente quando constamos seu destino.

Agora, se o filme erra no desenvolvimento de seus personagens, certamente acerta em cenas repletas de uma ironia fria, quase cruel. Entre elas está a já citada cena em que Briony conversa com um moribundo, onde eu mesmo demorei para perceber a verdadeira força do que acontecia ali. Ainda há a cena em que Robbie é preso, a que uma personagem se casa e a própria cena final.

Desejo e Reparação é um filme sagaz que se diverte consigo próprio enquanto as atitude de seus personagens e o acaso os esmaga.